sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Apenas um Velho Texto Adormecido por Anos | de 2011

Eram sete horas da manhã meu celular tocou. Minha amiga Camila precisava de uma carona até a Universidade, pois havia “perdido a hora”. Na volta, eu fui tomar café na cozinha da pousada onde estava provisoriamente. Sentadas à mesa, estavam a nossa secretária Tânia e uma professora de dança, que eu conheci há pouco tempo. Enquanto o café descia suavemente, conversávamos sobre dependências químicas e psíquicas. O que leva pessoas, ditas normais, a destruírem famílias inteiras, simplesmente por não terem controle de sua mente? Há pessoas que pensam que, ser viciado é não tem vergonha na cara, e que falta força de vontade para largar o vício, mas, só quem já tentou se livrar de alguma coisa, que considerava boa para si, sabe o quanto isso é complicado e doloroso. Eu não entendo muito sobre dependências. Eu sei apenas do meu vício, da minha prisão, e quando eu toquei neste assunto, dizendo em que eu era viciada, a professora de dança, que juro, não lembro-me do nome, nos revelou o tamanho de sua loucura. Quando ela tinha vinte anos de idade, seu noivo morreu de um aneurisma cerebral e ela enlouqueceu, no sentido figurado da palavra. Pegou uma mochila e ficou cinco anos viajando pelo mundo, Austrália, França.... Mandava uma mensagem por mês para sua dizendo estar bem. Após muitos anos buscando algo que não sabia o que era, ela se deparou com o Budismo, mudando sua maneira de ver o mundo. Através do Budismo, ela descobriu o que faltava em sua vida, quando olhou para dentro de si mesma. Sua felicidade a acompanhava o tempo todo, só ela não percebia. Sua felicidade não havia sido enterrado com o corpo daquele homem. Ela então voltou para casa e decidiu fazer a coisa que mais gostava: dançar. Havia largado sua grande paixão pelo simples fato de que seu noivo não queria que ela o fizesse. Foi por ele, que ela chorou, chorou.... e fugiu. Esse homem que morreu, era o vício da professora, da mesma maneira que o cara mais interessante do mundo, era pra mim. Hoje ela está casada com outra pessoa e muito feliz, pois nunca mais abriu mão de nada por ninguém. É feliz pelo simples fato de existir. Na hora que eu comecei a escrever este pequeno texto, lembrei-me de alguns momentos maravilhosos que tive ao lado do homem que eu mais amei. Esses momentos, foram imediatamente encobertos por uma nuvem negra, na hora em que eu  senti no peito uma dor terrível. Agora na minha mente, só estão as mentiras, as agressões físicas e psicológicas, as falsas promessas e muitas outras coisas que me fizeram passar noites em claro e emagrecer vários quilos. O homem que mais me fez feliz, foi também quem mais me fez chorar, e hoje, estou lutando contra este vício, essa droga que me assombra todos os dias. Não me acho perfeita e sei que tive minha parcela de culpa, que talvez tenha sido, amar demais. Agora eu não me culpo mais por nada, pois pensando bem, eu só reagia ao que ele fazia pra mim. Perdi a conta de quantas vezes eu pedi desculpas, apenas para que ele não desligasse o telefone e o meu desespero aumentasse. Na maioria das vezes, eu pedia desculpa, sem saber por quê, pois ele sempre conseguia inverter a situação, e eu ficava convencida que era a culpada por tudo. Por várias vezes eu tive que ouvir ele me mandar calar a "porra da minha boca". Era como se eu fosse um cachorrinho adestrado, que mesmo sabendo que o dono não estava certo, obedecia, apenas para continuar tendo a companhia de seu proprietário. Eu não preciso mais disso. Hoje eu descobri que tenho valor, que estou cercada por pessoas que realmente demonstram o amor que sentem por mim. Estas pessoas não dizem que eu sou importante, depois de me chamarem de vagabunda, elas simplesmente gostam de mim, pelo que sou, e se algum dia eu as magoei e pedi desculpas, sei que fui perdoada. A gente não esquece o passado, mas é preciso saber superá-lo, pois todo mundo tem o direito de errar. Pensando assim, eu tentei esquecer muita coisa que jamais deveria ter esquecido, como a invasão da minha privacidade, quando tive o meu computador rackeado por ele e minha intimidade exposta e várias folhas de papel sulfite. Minhas conversas nada mais eram, do que desabafos em forma de mensagens divertidas com amigas e foram usadas para que eu me sentisse mais culpada pela desgraça que era a nossa relação. Tudo o que eu escrevia, por mais que o magoasse, nunca diminuiu em nada o amor que eu sentia por ele. Eu nunca o traí, mas isso já não vem mais ao caso, pois se o tivesse feito, talvez hoje, eu não me sentisse tão triste em lembrar dos hematomas que ele deixou no meu corpo e que até hoje ele não teve coragem de pedir desculpas. Eu amei esse homem como nunca imaginei que pudesse um dia amar alguém e vivi com ele os melhores momentos da minha vida, mas isso, não diminui em nada a manipulação psicológica pela qual eu passei. Para mim, postar o que foi a minha vida durante um ano e quatro meses, é a certeza do fim, pois ele jamais me perdoará por esse texto se bem que, não tenho do que pedir perdão, estou apenas me libertando da prisão e fazendo o que ele sempre me pediu, transformar nossa historia em textos. Estou saindo das telas do cinema e voltando pra vida real. Eu sou a borboleta que saiu do casulo e agora está livre, deixei de ser aquela mariposa se debatendo contra uma lâmpada, apenas porque achava que aquela luz era sua única salvação, e não conseguia ver, que ao longo da rua, existia mais uma infinidade de postes à sua disposição. Nada disso é por vingança, pois se eu quisesse fazer isso, já teria feito, e, de uma maneira, que só ele sabe qual é. Escrever é a minha paixão e a maneira que encontrei de tirar a dor de dentro de mim. Ainda bem que nem tudo é tristeza. Como eu já disse, com ele eu vivi os melhores momentos de minha vida e que jamais eu deixaria de fora. Nossa história, teve momentos maravilhosos e inesquecíveis. Nem tudo foi sofrimento. Hoje,  eu não sei por onde ele anda, onde está vivendo, mas do fundo do meu coração, eu espero que esteja bem e, que consiga me entender um dia, diferentemente de mim, que nunca consegui decifrá-lo.

Silvana Hennicka.