domingo, 17 de janeiro de 2016

Superando o Amor

Ela sempre quis ser perfeita pra ele, a melhor amiga, a melhor amante, a melhor cozinheira, enfim, a melhor, mas ela esqueceu que a perfeição nada mais é do que um estado de espírito. Ela tentava, insistia em fazê-lo feliz, não conseguia. Ela sonhava em arrancar sorrisos de seus lábios e então se frustrava quando ele chegava em casa e recusava seus beijos. Ela chorava no silêncio de sua alma ao ver o seu grande amor com aquele olhar vazio e sem vida. Eram lágrimas invisíveis, pois se ele a visse chorar, ela deixaria de ser perfeita e então, ela fingia, fugia e se perdia. Em seu conto de fadas tudo era perfeito e todas as vezes que ele a magoava era ela quem pedia perdão, pois a ideia de perdê-lo a deixava sem razão e ela não conseguia ver que os papéis estavam invertidos. Ele mentia e ignorava a sua existência, mas ela não queria ver o que estava bem diante de seus olhos, um homem que aprendera fingir amor, que só se sentia bem quando ela estava mal. A convivência com alguém tão frio e calculista a fez adoecer e naquele leito de hospital, ela se arrependeu por ter perdido sua vida por um homem que nunca mereceu uma lágrima sua. Ela então pediu a Deus uma segunda chance para corrigir seus erros e Deus, com sua sábia energia, atendeu ao pedido daquela doce mulher. Ela teve a prova de que ele era desprovido de qualquer sentimento, quando realmente precisou de amor e compreensão e ele negou. Após um período doloroso, ela conseguiu curar as feridas do corpo e arrancar do seu peito as dores de sua alma. Ao voltar para o mundo real, ela foi até a casa que eles planejaram com tanto amor e carinho, arrumou apenas o que pode carregar e partiu sem olhar pra trás. Naquele lugar não tinha nada que merecesse um segundo olhar a não ser a imagem de um homem frio e sem nada no peito. Seu coração foi transformado em pedra assim que ele veio ao mundo e sua alma estava aprisionada em um quarto escuro e frio. Após sentir o ar da liberdade, ela parou na calçada, olhou um casal de pombos que namoravam em cima de um galho de árvore e sorriu. Ela não tinha para onde e ir, mas tinha em si a certeza de que estava livre. Não era uma liberdade como de um presidiário, que esteve preso porque precisava pagar uma dívida com a sociedade. Sua liberdade era como a de uma borboleta que, mesmo sem fazer nada de errado, precisou passar pela metamorfose que a vida lhe impôs. Sofreu dentro de sua prisão, para depois dar valor a liberdade. Aquela mulher sofreu e sofreu muito em nome de um amor que ela jurava ser eterno, mas como nada nessa vida é para sempre, ela parou um taxi e começou sua nova viagem rumo aos sonhos que ela deixou de realizar. Agora a borboleta estava pronta para bater asas e escolher a mais bela das flores para repousar e finalmente ser feliz de verdade.

Silvana Hennicka!!