domingo, 6 de dezembro de 2015

Um Sonho Interrompido Pelo HIV

1996, um calor insuportável invadia o quarto do velho hospital público onde Letícia esperava a hora de partir deste mundo. Extremamente magra e sem a mínima vontade sair da cama, ela trocava exaustivamente os canais do pequeno televisor de 14 polegadas que estava preso a um suporte fixado na parede. Sua mãe não demonstrava, mas preferia que sua filha morresse logo, pois não suportava mais ver sua agonia.
Letícia sempre foi uma menina vaidosa e desejada por muitos homens, mas era seletiva demais para ficar com “qualquer um”, e assim, esnobava a maioria. Com 56 kg muito bem distribuídos em 1,88 de altura, Letícia conseguiu ganhar vários concursos de beleza, mas o que impulsionou sua carreira foi o contrato que fechou com uma grande agência de modelos, chamada Glamour. A beleza dessa menina sonhadora causava inveja a muitas mulheres na pequena cidade onde morava com seus pais, no interior do Paraná e isso limitava seu ciclo de amizades. Mesmo viajando pelo mundo todo, sempre que podia, Letícia voltava pra casa e ficava o máximo de tempo possível com sua família, pela qual ela chorava muito quando estava longe. Com 16 anos de idade, ela era apenas uma adolescente começando a conhecer o mundo, isso às vezes a assustava e ela sentia vontade de abandonar tudo e voltar para a proteção de seu lar. O que Letícia mais sentia falta, era das horas que passava conversando com seu irmão Paulo. Mara e Felipe optaram por ter apenas dois filhos, pois não teriam condições financeiras para dar uma boa educação a mais alguém. Paulo, com 19 anos, cursava o segundo ano de direito em uma cidade não muito longe de onde moravam.  Mara, além de cuidar da casa, ajudava Felipe na pequena papelaria que possuíam há 10 anos, desde quando ele precisou se aposentar, ao sofrer um acidente de trabalho. A aposentadoria era o suficiente para as contas do dia a dia, mas Felipe não queria se tornar um inútil e também porque o dinheiro extra pagava uma escola particular para seus filhos e esse era o sonho do casal.
Apesar de ter um bom contrato, Letícia estava começando na carreira de modelo e não ganhava muito dinheiro, mas sempre que podia,  mandava algum para seus pais e também pagava a faculdade de seu irmão. Ela sabia que as coisas não seriam fáceis, pois nesse mundo, tem sempre um querendo "comer" o outro e para se chegar ao topo, é preciso se destacar, mas a disciplina de Letícia e o seu amor pelo que fazia, ajudava bastante.
No verão de 1990, pouco antes de completar 17 anos, Letícia foi passar as férias com seus pais e como presente de Natal, levou sua família em uma viagem de férias para uma praia do litoral de Santa Catarina, tudo pago com o dinheiro que ganhara desfilando. Alugaram uma casa de veraneio a duas quadras da praia. Já na primeira noite Letícia e Paulo foram até uma casa noturna muito badalada, a fim de dançar e beber. Apesar de ser menor de idade, Letícia parecia mais velha, por conta da sua altura, mas sempre que lhe era exigido uma documentação, ela apresentava uma identidade falsa, que comprara em São Paulo um ano antes. Ela já entrou no local chamando a atenção de todos, mas a companhia de Paulo mantinha os homens longe dela. Letícia não estava ali para ficar com ninguém, não era o seu estilo, ela queria ser notada e depois ir embora, mas nesta noite algo fugiu do seu controle. Os dois irmãos dirigiram-se até o bar, e foi lá que Letícia sentiu o ar lhe faltar pela primeira vez. Jacques tinha um estilo que não negava sua paixão pelo surf. Cabelo loiro, pele dourada, um corpo bem definido e um olhar misterioso. Ele estava sozinho e nem reparou na presença de Letícia, que sem pensar duas vezes puxou conversa. Ela usou a tática mais comum que existe, perguntou se já não o conhecia e o romance relâmpago teve início depois que ele abriu um sorriso encantador, deixando transparecer que sabia se tratar de uma cantada. Jacques e Letícia passaram a madrugada conversando e naquela altura a balada já não era mais importante. Paulo aproveitou que sua irmã estava acompanhada, para conhecer mulheres de todas as partes do País e por que não dizer do mundo, já que acabou beijando uma australiana que estava de férias no Brasil.
Durante os 10 dias que ficou no litoral catarinense, Letícia se encontrou com Jacques todos os dias, mas em nenhum momento ela conseguiu saber quem ele era na verdade, qual sua idade, sua profissão, onde morava... mas ela não estava muito interessada em saber o que ele escondia, Letícia queria apenas curtir aquele momento mágico com o homem a quem resolveu se entregar pela  primeira vez. Tudo se deu na praia onde a Lua reinava única na imensidão da noite. A praia estava deserta e Letícia percebeu que a hora tão esperada havia chegado. O homem que fez seu coração bater mais rápido estava ali, ao seu lado e em momento algum ela se arrependeu da decisão que tomou.
Quando chegou a hora de retornar para o interior do Paraná, Letícia foi até a praia a fim de se despedir de Jacques. Ela estava com o coração apertado por não saber se algum dia o veria novamente, foi quando ele lhe entregou um envelope branco, lacrado. Ele pediu para que ela não olhasse imediatamente o conteúdo da carta. Pediu para que ela abrisse o envelope quando já estivesse no caminho de volta e Letícia manteve a sua promessa. Quando ela o questionou, sobre o que havia no envelope, ele disse que ali estavam informações à seu respeito, as coisas mais íntimas de sua vida, enfim, tudo sobre ele. Letícia ficou feliz ao ouvir aquilo, ela não queria perder contato com ele, apesar de saber que aquilo tudo, nada mais era do que um romance de verão.
Despediram-se com um longo beijo, seguido de um abraço apertado. Os pais de Letícia já a aguardavam em frente a casa de praia. Só faltava ela chegar para que pudessem partir. Letícia não compartilhou detalhes daquele romance com seus pais, apenas Paulo foi seu cúmplice, mesmo assim ela não contou tudo o que havia acontecido.
Com a carta em mãos Letícia entrou no veículo. Antes mesmo de deixarem os limites da cidade ela rompeu o lacre do envelope e entrou em choque ao ler as poucas palavras que ali estavam. Sua respiração ficou ofegante e ela não conseguiu disfarçar, pois as lágrimas verteram de seus olhos instantaneamente e Paulo ficou assustado e antes mesmo de perguntar o que estava acontecendo, Paulo leu o conteúdo da carta e encarou sua irmã. Não foi preciso dizer nada para que ele soubesse que aquilo deveria ser um segredo entre eles. A carta era breve e continha as seguintes palavras:
“Você passou dias tentando me desvendar e agora quero dizer-te que eu já não existo. Estou morrendo por conta de uma infecção por HIV e com certeza você também está com o vírus. Não me julgue, apenas decidi que eu sou muito novo para morrer, mas se eu tenho que aceitar isso, levarei comigo o maior número de pessoas possíveis, tanto homens quanto mulheres e espero que um dia Deus me perde por ser tão cruel, mas isso tudo é porque eu já não tenho um coração, a vida me transformou em um ser vazio e sem sentimentos, você pra mim, nada mais foi do que uma aventura com um propósito... Não tente me encontrar, pois quando você ler isso, eu já estarei longe. Boa sorte em sua nova vida!”
                Paulo segurou forte a mão da irmã e ela se acalmou um pouco. Eles precisavam tomar cuidado para que seus pais não percebessem o que estava acontecendo. Ele colocou a cartão no bolso da bermuda e pediu a Deus para que Letícia não estivesse contaminada, mas após três meses repetindo os exames por causa da janela imunológica, veio a confirmação. Letícia viajaria um dia após pegar o resultado do exame, pois teria um desfile para fazer na cidade São Paulo, mas isso havia se tornando insignificante perto do que aconteceria com ela dali por diante. Ela chegou em casa aos prantos, abraçou sua mãe e lhe contou tudo. Foi naquele momento que Letícia entendeu o que Jacques quis dizer. Ela sentiu medo, revolta, raiva... Pensou em se matar, mas isso já não era preciso, pois em sua cabeça, ela morreria em breve.
                Após ouvir a opinião de alguns infectologistas, Letícia resolveu voltar ao trabalho e fazer de conta que nada estava acontecendo, mas o fantasma do HIV não a deixava, e aos 23 anos de idade, Letícia começou a ter as primeiras infecções por conta da AIDS e após meses de tratamento e inúmeras internações, a estadia de Letícia aqui neste mundo havia chegado ao fim.

Silvana Hennicka!!