sábado, 21 de novembro de 2015

No Silêncio do Lago

Em meio à névoa que envolvia meu corpo e embaçava a minha visão, eu tentava visualizar as águas do lago que estava logo à minha frente. O velho banco de madeira onde eu estava sentada parecia ruir a qualquer momento. Ele havia sido abandonado pelo tempo e sua estrutura estava podre e comprometida, mas com certeza suportaria o baixo peso do meu corpo. Em outra época, eu fora uma mulher linda e encantadora, mas a tristeza que carrego em meu ser, me transformou nisso, uma pessoa triste, sem brilho e sem amor próprio. Meus cabelos negros, levemente cacheados estavam ressecados e opacos e minha pele desidratada, deixando visível algumas rugas que não deveriam estar ali, não tendo eu, apenas 35 anos de idade.
            O bosque, onde ao centro estava localizado o lago, parecia um cenário de filme de suspense. Além do frio, uma garoa fina ao entardecer, tornava o local assustador e melancólico. A movimentação de pessoas já não existia e eu estava sozinha, me despedindo das últimas lembranças que rondavam a minha mente. Nada mais me restava a não ser aquele misto de sentimentos envolvendo derrota, decepção e culpa. Apenas alguns metros me separavam da água fria do lago que a neblina insistia em esconder. Quando realmente senti que estava pronta para cumprir o que havia planejado, levantei e aproximei-me do que mais parecia um monstro prestes a me engolir, o Lago das Lágrimas. O lago tinha esse nome por causa de uma lenda. Segundo os antigos moradores da região, uma serpente que habitava essas águas escuras, surgia nas noites de verão e silenciosamente raptava moças, levando-as consigo para uma caverna escondida no fundo do lago. As lágrimas dessas moças seriam responsáveis por manter o nível da água, não deixando que o mesmo baixasse, nem em períodos de extrema seca e então, o esconderijo nunca seria descoberto. Essa história é passada de pai para filho e nos dias atuais, poucos acreditam que isso tudo seja verdade. Nas noites de verão, não temendo nada, muitos jovens fazem do bosque o local ideal para se embriagar e usar drogas. Em meio a alucinações, alguns deles juram ter visto a serpente, mas nada ficou confirmado e então, com o passar dos anos, a lenda foi se perdendo e cada vez menos pessoas falam sobre isso.
O lago era cercado por uma estrutura de concreto formada por três degraus, que impediam o contato da água com a grama, como se fosse uma piscina sem manutenção a qual a água fica turva e assustadora. Subi no degrau que formava o topo da escada e estava molhado por causa da garoa. Quando coloquei meu pé direito no segundo degrau, pude sentir a força de um punhal entrando na minha carne. A água parecia congelada. Mantive-me firme. Coloquei o outro pé no degrau seguinte e quando prossegui, senti tudo sumindo debaixo dos meus pés e meu corpo foi lançado ao desconhecido. Uma imensidão de água pressionou os meus ouvidos e eu percebi que tudo se daria muito rápido. Eu queria estar ali. Eu queria afogar-me nas lágrimas das moças que foram raptadas, e então, acabar com aquele sofrimento que maltratava a minha alma e fazia de mim um poço de desespero. E foi no exato momento que eu decidi entregar-me ao que pensava ser o meu destino, que tive a sensação de não estar só. A princípio pensei que um anjo se fizesse presente, mas esse pensamento se dissipou e então, imaginei que as mãos que me puxavam para cima, pudessem ser das virgens que a serpente raptou. Alienada em meio a vários tipos de sentimentos, enquanto meu corpo era lançado sobre os degraus de concreto, por onde, há alguns segundos, eu havia passado, cheguei a pensar que pudesse ser Deus e que a hora de pedir perdão pelos meus erros havia chegado, mas tudo isso era fruto da minha imaginação. O que eu estava vivendo era real. Eu mantive meus olhos fechados e quando me dei conta, meu corpo já não estava em contato com o concreto, nem tampouco, submerso. Eu sentia o ar gelado na minha pele, mas a água impedia que ele chegasse até os meus pulmões e assim, o pânico começou a tomar conta de mim. Uma voz chamava minha atenção, mas parecia estar muito além daquele bosque. Em um esforço sobre humano eu consegui abrir meus olhos e ao visualizar aquele rosto, senti o ar gélido ultrapassar os limites dos meus pulmões e me devolver à realidade. Deitada sobre a grama quase congelada, eu sentia como se um punhal estivesse entrando em minha pele e comecei a tremer compulsivamente. Aquele rosto desconhecido tentava sem sucesso, arrancar-me palavras, mas eu percebia apenas o seu olhar de desespero em meio à situação que eu causara. Em uma súbita vontade de voltar no tempo e nunca ter entrado naquelas águas turvas e frias, eu senti que a grama já não estava mais sob o meu corpo. Fechei novamente os olhos e quando os abri, reconheci aquele rosto. Meu amor havia voltado para me salvar da maldade do mundo e das pessoas. Desde a sua partida eu não sentia mais o amor que um dia habitou meu ser. Aos poucos meu corpo começou a flutuar. A dor e o frio desapareceram a então, eu fui repousando no fundo barrento do lago, onde me mantive por toda a eternidade ao lado do meu grande amor.


- Silvana Hennicka