quarta-feira, 6 de julho de 2011

No Vale da Sombras.

Perdida em uma floresta escura, ela só tinha um desejo, seguir em frente. Passava as horas em meio aos ruídos causados pelos seres que habitavam o lugar, mas não sentia medo, no fundo gostava de estar ali presa ao desconhecido. Para ela, viver a realidade já não era um desejo, ela queria paz e solidão. Em meio a neblina que envolvia as árvores, ela sentia frio, seu cabelo estava úmido e a pele ressecada pelo vento. Com um gesto delicado, ela retirou do rosto a mecha de cabelo que o vento insistia em bagunçar. Seus dedos estavam gelados e ela sentiu um arrepio ao leva-los até a orelha, onde enroscou a mecha de fios loiros. Sempre olhando para frente, ela sentia seus pés envolvidos pelas folhas secas que caíram no outono e agora repousavam sob o solo fértil da floresta. Ela nunca soube se era dia ou noite, sabia apenas que precisava seguir em frente e continuar sendo forte e corajosa, como sempre fora. Quanto mais andava, mais ela tinha certeza de que não sairia daquele vale de sombras, pois a vida estava lhe mostrando que a face da morte não é tão assustadora quanto parece, depende do ângulo que se observa. Em sua busca incessante por resposta, ela sentiu uma gota de orvalho escorrer sobre a bochecha rosada e nesse instante ela foi trazida de volta a realidade. No mesmo momento em que abriu os olhos, ela levantou a cabeça, afim de ver de onde partira tão sublime gota d`água. Espantada ficou, ao visualizar um raio de luz lhe ofuscando a visão. Em um movimente quase que involuntário, levou a mão aos olhos, como uma maneira de se proteger e aos poucos foi se acostumando novamente com aquele calor gostoso que não sentia há muito tempo. Quando decidiu olhar em volta, sentiu uma liberdade nunca sentida antes, a neblina havia se dissipado. Os ruídos que a assombravam haviam sido substituídos pelo cantar de centenas de pássaros. Após dias de frio intenso, ela finalmente pode retirar do pescoço o grosso cachecol vermelho que tentava aquecê-la. Os dedos finos e compridos já não estavam gelados. Conforme o sol foi secando seu cabelo, os cachos foram tomando forma e ela ficou feliz. 
Ela percebeu que o medo estava dentro de si e a única maneira que encontrou para superá-lo, foi enfrentando-o. 
Se tivesse fugido, seria bem possível que nunca encontrasse a saída, mas como decidiu espantar as coisas ruins que a cercavam, agora ela poderia parar e desfrutar de sua nova vida. Finalmente seu desejo foi realizado, ela acordou do sonho para viver "sua" realidade. No começo não foi fácil, as vezes ela sentia falta do barulho oculto, do vento balançando os galhos das árvores e zumbindo em seus ouvidos. Sentia falta da brisa gelada e dos seus cabelos na face, mas quando isso acontecia, ela tinha o poder de fechar novamente os olhos e voltar para seu mundo imaginário, pois o caminho de volta ela já aprendera. Nem sempre o que parece uma desgraça é tão ruim assim. Existem momentos que precisamos de nós mesmos e mais nada, momentos que precisamos fugir para o nosso próprio mundo e conversarmos com nossa alma. Necessitamos fazer uma análise de tudo o que está acontecendo à nossa volta, para só então, conseguirmos ouvir o cantar dos pássaros, ver o brilho do Sol, sentir o cheiro da chuva na terra seca, observar a beleza das flores... Precisamos dos momentos ruins para  darmos valor aos momentos bons. Precisamos estar sós, para sentir saudade de alguém que já nos completou e que agora só encontramos em meio aos nossos sonhos.


Silvana Hennicka!!